segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Pai no Parto: sim ou nim?


Facto 1: Há c. de 100 anos, na sociedade ocidental, apenas mulheres estavam presentes no parto. [Teoria 1: os homens só atrapalham nestas alturas, pelo que quanto mais longe, melhor.]

Facto 2: Hoje em dia, luta-se pelo direito ao progenitor de assistir ao parto (mesmo que ele não se sinta compelido a estar presente).
[Teoria 2: a ligação pai-bebé e pai-mãe são imediatamente reforçadas, pelo que é de incentivar a sua presença.]

Hum... então com'é?
O obstetra Michel Odent, que deu uma interessantíssima entrevista recentemente no programa Entre Nós da Sic Mulher (parte1 e parte2), veio agitar as águas ao ir na direcção oposta da corrente que tem vindo a crescer desde os anos 70: o direito (quase dever hoje em dia) do pai assistir ao nascimento dos filhos. Aqui, aqui e aqui vão encontrar 3 artigos deste grande médico em que ele explana o porquê da sua opinião. Um dos artigos é de 1999 e os outros de 2008 e 2009. Com todo o respeito por um médico que exerce à 50 anos e foi o precursor de muitos estudos e implementou mudanças positivas na forma de nascer do século XX e XXI, vou tentar analisar a questão de uma forma científica.
O Dr. Odent expõe 3 problemáticas diferentes: Será que o homem junto da parturiente
a) prejudicará o desenrolar do t.p.?
b) prejudicará a atração física futura entre os dois?
c) conseguirá lidar com toda a carga emocional que advém do parto?

O Dr. Odent refere que não há registo de qualquer outro mamífero sem ser o homem, que assista ao parto da sua fêmea; e ainda que há 40 anos era impensável que o homem assistisse ao parto. Ora, numa breve pesquisa encontrei este artigo de 2000, que refere que há uma espécie de hamster que assiste e ajuda a sua fêmea a ter os seus filhotes; e há registo pontual de tribos africanas e americanas em a tradição é que o pai está presente durante o parto e dá apoio à sua mulher, isto desde há vários milhares de anos...
O Dr. Odent admite, que devido à nossa fisiologia (anca estreita, andarmos erectos...), as mulheres devem ter assistência durante o parto. Ora, logicamente fará sentido que "quem os pôs lá, os ajude a tirar" [como refere a Ina-May Gaskin no seu livro Spiritual Midwifery]...
Continuando, compreendo quando o Dr. Odent diz que o marido começou a ser chamado para dar apoio à mulher quando os partos se mudaram para o hospital e quando os casais começaram a viver longe dos seus progenitores: ou seja, 1) a mulher não tinha o apoio das outras mulheres de família, omnipresentes até então nos partos, para além da parteira; e 2) o hospital com o seu ambiente frio e isolado, fazia com que a parturiente se sentisse mais confortável com alguém familiar. Esse alguém, mais próximo, passou a ser o marido: hoje em dia, o papel do homem mudou, as famílias são geralmente o casal e os filhos, vivendo "isolados" nas nossas "caixas", e a democratização de tarefas faz com que ambos os pais devam estar activamente participativos em tudo, até no parto.
Mas o Dr. Odent alerta: Um homem, por mais que queira parecer calmo, não consegue esconder a sua ansiedade, e a libertação de adrenalina impede com que a mãe, em pleno t.p., liberte a oxitocina que precisa... [Na minha opinião, tanto faz ser homem como mulher: basta haver alguém nervoso ao pé da grávida para isso acontecer.]
O Dr. Odent refere que isso pode ser um dos motivos para partos prolongados, dolorosos e que acabam em cesariana [hum... ok, até concordo, mas será que se estão a ter em conta todos os outros factores relativos a um parto, especialmente se for em ambiente hospitalar?]
Num dos artigos o Dr. Odent diz que a teoria nº2 não está comprovada com dados estatísticos e fala dos seus mais de "15.000 nascimentos assistidos", e dos vários desfechos menos positivos que viu ao longo dos anos para relações em que o pai esteve presente no nascimento; mas na realidade, também não apresenta as estatísticas que o fazem justificar esta posição...
Fala de pais que fugiram para não mais voltar depois de verem as suas mulheres parir; e outros que ficaram em depressão sem outra causa aparente [será?] ou simplesmente perderam o apetite sexual pelas suas esposas... [Será que foi o parto que o provocou ou teria acontecido de qualquer forma?]
Com todo o respeito, formulo estas questões pois estou a pensar: será que fiz mal em deixar o meu marido assistir ao nascimento da nossa filha? será que as discussões porque passámos desde então aí tiveram origem? como farei se engravidar novamente? terei eu o direito de o privar de ver o nascimento de mais um filho? mas, e se de alguma forma, com essa privação conquistar o bem-estar da nossa relação? Poderei ser egoísta ao ponto de querer tê-lo a meu lado para minha segurança e conforto, e arriscar o futuro da nossa família?
Espera... Espera aí!!!!!!!!!!!!!!!
Primeiro, cada caso é um caso.
Cada casal é uma entidade distinta e tem distintas necessidades!
Esta decisão deve basear-se no respeito mútuo por ambos os indivíduos e tentar que as coisas fluam naturalmente sem que um se sinta invadido ou desrespeitado pelo outro. Há 3 cenários possíveis:
- se ambos se sentirem desconfortáveis com a presença alheia, o problema está resolvido
- se ambos se sentirem confortáveis e o desejarem, em todos os momentos, estar juntos, devem fazê-lo
- se a mãe (ou o pai) não se sentir confortável com o pai assistir ao parto, deve ser sincera(o) e dizê-lo e arranjarem um compromisso que satisfaça a ambos

Penso que não há fórmulas (e isso também o Dr. Odent refere na sua entrevista de tv) e que cada casal, cada parto deve ser analisado previamente (sim, porque na hora convém estarem concentrados noutras coisas!) Nada impede que mudem de ideias na hora, e convém falarem sobre isso também antes do dia D.
No nosso caso, o pai foi-se preparando: sempre quis estar presente, foi aos encontros de casais, leu imensos livros e artigos, tivemos reuniões com a nossa Doula, i.e., ele teve oportunidade de se inteirar do que ia ou podia acontecer e de falar comigo sobre o que eu desejava para essas horas: se queria ou não que me tocassem, se queria ou não que falassem comigo, se queria ou não que ele ali estivesse. E quando a altura chegou, eu QUIS muito que ele ali estivesse. E bastava um sinal para que ele percebesse o que eu queria (ou não). Até a doula e a parteira chegarem, ele estava a tentar disfarçar o nervosismo, mas depois delas chegarem ele acalmou e entrou em modo "suporte": foi tudo aquilo que eu podia desejar. Aliás, foi tanto que na altura da expulsão ele queria dar a volta e ir ver e eu não o deixei porque precisei que ele ficasse à minha frente para eu me concentrar nas contrações... Terá sido instinto? Não quereria eu que ele me olhasse daquela forma? não sei. Mas correu bem e eu não o quereria de outra forma. Será que o "usei" porque nenhuma das fêmeas da minha família iria estar presente para me apoiar? Provavelmente sim. Se foi mais longo por ele ali estar? O parto activo durou 5 horas bem contadas: eu também não queria que tivesse sido mais rápido ou tinha-me "partido ao meio". Se foi com mais dores do que podia ter sido? Pois, o meu pai não esteve presente no meu e a minha mãe diz que só teve 2 contrações dolorosas, mesmo antes de eu nascer. Mas a mim também não foi assim tão doloroso: não tinha era intervalos. Se a placenta podia ter nascido logo se ele ali não estivesse? Não. Aí sou categórica: a placenta não nasceu porque fiquei nervosa: queria que a recolha das células estaminais corresse bem, queria que os vizinhos não batessem à porta, queria que a minha mãe - que eu sabia que estava ali perto - não aparecesse de surpresa pois queria ser eu a contar-lhe. Tudo isto rodopiava na minha cabeça (aliás no meu neocórtex, que devia estar desligado!) e quando a campaínha tocou (por mais de uma ocasião), foi o suficiente.

Correndo o risco de ser insolente, vou conjecturar acerca do assunto mais um pouco:
Será que aqueles homens que fugiram, que estiveram deprimidos (e sim eu acredito em dpp do pai) não teriam feito o mesmo se não tivessem assistido ao parto? O período do pós-parto é crítico, é o anti-clímax de 9 meses de expectativas e do boom que é o parto. É o período, especialmente para o primeiro filho, que o homem perde temporariamente a posição de prestígio e ainda por cima tem milhões de tarefas e responsabilidades a cair-lhe em cima... É realmente o período do vai-ou-racha, em que muitos homens não aguentam a pressão de um novo ser que exige toda a atenção da sua fêmea e a sua também...
Mais uma vez, o meu marido não teve tempo para dpp: com a minha subida de leite e a recaída das hemorróidas 2 dias depois do parto, ele esteve uma semana constantemente a mimar-me e a minorar os meus desconfortos. Depois, bem depois, lá teve a sua crise de "pai-que-tem-que-providenciar", mas acho sinceramente que teria acontecido de qualquer forma...
Quanto à atracção sexual diminuir... bem, não posso comentar muito porque os meus sogros lêem o blogue (LOLOLOL) mas podemos dizer que está tudo bem nesse departamento. Há 200 anos atrás, houve uma altura em que marido e mulher apenas "se conheciam" (sim, é um eufemismo para SEXO) literalmente através de um buraquinho no lençol de sábado, "porque era indecente um ver o outro desnudo" ou "porque podia haver perda de interesse". Acho que podemos afirmar que a maior parte dos casais já não usa esse lençol e depois de tanto vídeo de deputadas italianas por um lado; e de partos, por outro, a imagem visual já está bem impregnada na mente deles e já sabem bem o que os espera.
O desejo, a chama não se mantém, na minha opinião, apenas pelo físico mas também pelo emocional: o enamoramento e o desejo vêm das maluquices espontâneas, daquela gargalhada partilhada, de um olhar mais atrevido. Mas isso é só a minha opinião...
Será que de alguma forma, isso está enraízado no âmago do Dr. Odent por não ter assistido ao parto de nenhum dos seus filhos, como ele relata? Será devido à sua formação profissional?
De qualquer forma, palavras leva-as o vento e cada qual deve ponderar estes factos e decidir em conjunto o que acham ser melhor para si, para o decorrer do parto e da sua relação.
Cá fico à espera das estatísticas às 3 questões colocadas, preto-no-branco, que sou é como S. Tomé...

3 comentários:

We Are Not Typical - WANT disse...

lol tens uma forma fácil de saber, tens o próximo só entre mulheres e logo vês a diferença. :)
na formação fiquei convencida do ponto de vista do Odent mas, ainda assim, acho que quero o N. por perto no próximo. pelo menos durante o tp.

moya disse...

Pois C., mas eu senti-me bem com o meu marido ali. Não o imagino de outra forma...
se o meu marido não o quisesse, provavelmente a doula e a parteira seriam suficientes. Mas ele foi fundamental, apesar de eu não o admitir até a hora chegar.
se me disseres que é preferível uma mulher parir com uma enfermeira empática a um marido machista e contrariado, aí sim dou-te toda a razão.
Mas se me disseres que uma mulher tem que parir com equipa feminina que a castra e infantiliza, mil vezes será preferível que o seu marido dedicado ao lado.
Quanto à expulsão, sim, aí posso vislumbrar algum sentido porque os homens ligam-se muito mais as imagens que as mulheres...
mas olha, novas pesquisas o dirão...

Saphira disse...

Acho q depende de cada casal, mas para mim, no meu parto, foi pai presente sim, sim!!! Foi fundamental!