sexta-feira, 30 de setembro de 2011

"Descame"

Desde o nascimento da moyinha que praticamos co-sleeping. Sempre fez sentido para nós, quer fosse por ser mais prático, mais seguro (diminui o risco de morte súbita) ou mais aconchegante, para ela e para nós. Mas desde o 2º aniversário da moyinha que acordávamos com pés na cara, destapados, e que ela acordava ao mínimo movimento... Assim, decidimos colocar uma cama de viagem ao lado da nossa: adormecia-a na nossa cama e depois (se eu não adormecesse primeiro) colocava-a deitada na dela. Ela chegou a dormir lá uma ou duas noites de uma só assentada mas o normal era acordar a meio e vir para a nossa cama ou, mais recentemente, pedir para a pegarmos para ir para a nossa cama.
Nas férias de verão fiquei muito admirada porque na casa onde ficámos a cama de casal era muito estreita e eu tive que recorrer a uma cama improvisada para a deitar. Juntei dois maples frente a frente: tinham uma superfície acolchoada dura e os braços impediam que caisse, e correu muito bem: quase todas as noites por mais de 15 dias dormia toda a noite de seguida, só acordando por volta das 7h com a luz, para mamar ou vir para a nossa cama. Se acordava de noite eu dizia-lhe para voltar a dormir que ainda era noite e ela voltava-se para o outro lado e dormia. Foi nessa altura que comecei a fazer o paralelo com as sestas: nunca ela tinha dormido tanta sesta de seguida e durante tanto tempo e parecia que assim até dormia melhor de noite.
Entretanto comecei a ler o livro da Elisabeth Pantley (No-cry sleep solution for babies) e comprei o No-cry sleep solution for toddlers e percebi que fazia sentido: quanto melhor ela dormir de dia (enquanto eles fizerem sestas, of course), melhor é o descanso de noite. Gostei muito desta autora porque ela não é uma teórica: é uma mãe de 4 com muita experiência em ajudar outras mães com questões de sono, e que nunca se sentiu confortável com o método "deixá-los chorar" ou "esperar que passe essa fase". O livro apresenta muitas sugestões carinhosas e permite aos pais tentar e se não gostarem daquela solução irem para outra, ou se nessa noite não resultar, parar e recomeçar noutro dia. Ou seja sem stresses.

Um erro crasso que eu estava a cometer era deixar que fosse a moyinha a estabelecer a hora de dormir. Isto até estaria correcto se fossemos todos deitar-nos com o pôr-do-sol, porque o nosso relógio biológico está preparado para o shut-down com a ausência de luz, mas numa casa com electricidade, música, televisão e brinquedos luminosos e sonoros, a última coisa que se nota é que já escureceu lá fora... Outro problema era que, como trabalhamos durante o dia, e quando chegamos a casa temos que tratar do jantar, banho, arrumações, etc, o tempo que fica para brincar é depois disso, ou seja, a moyinha ficava acordada e excitada com a brincadeira até 23h - 00h30... E como não anda na escola, acabava por recuperar o sono dormindo de manhã até às 9h-10h ou fazendo sestas de 3h quando tinha cansaço acumulado... Outro facto era a ausência de uma rotina de sono: fora a escovagem dos dentes (que se saltava, se ela adormecia antes de chegar a casa), tanto se cantava como não, tanto se contava uma história como não, etc. A rotina pré-sono consistia em me deitar com ela com a tv ligada e sem som (para eu aproveitar e ver algum programa e evitar adormecer) ou então no escuro, na nossa cama e lhe dar mama até ela dormir.
Sempre fui avessa a criar ritmos constantes, especialmente desde tenra idade, porque a criança quando nasce tem o seu próprio ritmo e somos nós que nos temos que regular por ele e não o contrário: ela tem necessidade de comer mais frequentemente, de períodos de descanso mais curtos (e durante muito tempo, uma noite de sono para eles é dormir 6h de seguida, ehehe). Para além disso, a "rotina de relógio" balizáva-nos muito na nossa liberdade de saídas e ia criar problemas no caso de termos que replicar condições para ela dormir fora de casa. Assim, rejeitámos até tarde a instituição de um ritmo de sono. Ela parecia óptima com isso: dormia quer houvesse luz ou barulho, num ambiente familiar ou estranho, desde que tivesse a sua maminha e pouco mais. Conseguimos evitar muitas situações de stress familiar e aproveitar muito mais os primeiros tempos da vida com um bebé, que nos dias de hoje na nossa sociedade, são vistos como ter que ficar "enclausurado em casa" ou largar tudo tipo Cinderela, assim que bate a "meia-noite"... Mas a partir de certa altura - eu já o noto desde os 12meses dela - apesar de ser uma bebé muito bem-disposta e calma, chegava a uma hora que tinha sono mas que recusava deitar-se e passando essa hora, ficava irritável e muito excitada. Eu perdia horas e a paciência a tentar que ela dormisse nessas ocasiões e se não fosse a maminha para a acalmar, não sei quantas mais teria perdido... Obviamente o pai não tendo mamas, não a conseguia adormecer (só entrando em cena nas situações em que eu já estivesse pelos cabelos e não aguentasse mais) mas para participar do pré-sono ia lavar-lhe os dentes e vestir-lhe o pijama e aproveitava para brincar com ela, "para a cansar" como ele dizia... Na verdade, ele estava a impedir que ela acalmasse e acabava por me dificultar a tarefa a mim...
Ao ler o livro da Pantley, percebi que o sono é regulado por muitos factores e que ter uma hora de deitar constante, com uma rotina bem estabelecida de pelo menos 45-60 min, deixa tanto os pais como as crianças mais preparados e mais apreciadores da hora de ir dormir. Às crianças porque percebem o que está a acontecer e conseguem acalmar; e aos pais porque transformam uma hora geralmente cheia de frustração e choro numa altura de partilha e carinho. Então desde que viemos de férias que tento ter uma rotina pré-cama a partir das 21h, quando antes a esta hora nem o jantar ela tinha tomado por vezes... Assim, depois do jantar, vemos uns desenhos animados ou não, e depois vamos lavar os dentinhos, fazer xixi e/ou cocó, lavar o rabo, as mãos e os pés (ou tomar mesmo banho, que a relaxa um pouco), depois vamos para a cama e vemos um livro de histórias ou brincamos suavemente, na cama.
Esta semana comecei a ter este ritual no quarto dela (até aqui muito pouco utilizado senão como armazém ou casa de brincar). Com uma luz mais diminuída, ligo uma música ou barulho branco (white noise): ela gosta imenso de ouvir a música ao deitar, às vezes até cantamos um pouco, mas de preferência uma música sem letra e calma, que não a estimule muito, leio-lhe ou conto-lhe uma história: ultimamente uma feita por nós, com recortes e colagens de revistas, que representa a rotina de pré-sono cá de casa e ela adora ver as imagens e contar a história também. Depois, apago a luz, baixo a música e deitamo-nos. Ela mama um pouco até adormecer (eu agora digo-lhe que é só um bocadinho e que ela já é grande e já não precisa da maminha para dormir) e ela passado um bocado larga a mama e vira-se de lado e adormece. Durante esta semana acordou uma média de 1 vez por noite, geralmente entre as 1h30 e as 5h. O pai ia então buscá-la para o nosso quarto, para a nossa cama, onde ela mamava ou se deitava até adormecer, mas anteontem ela chorou e disse ao chegar à nossa cama: "quero dormir com a mamã na nossa cama!". Lá a adormeci e ontem à noite experimentei ser eu a ir ter com ela ao quarto a meio da noite. Ela acordou às 5h00, chamou: eu fui ter com ela, deitei-me e dei-lhe um pouco de maminha, disse-lhe que ainda era de noite e ela adormeceu novamente. Só às 8h00 é que acordou!
Ela já se sente confortável em chamar "o meu quarto" e já pede para que a rotina do pré-sono se realize aí.
Nunca pensei que fosse tão fácil mudar certos hábitos de sono em tão pouco tempo e com tão poucas e simples regras. Isto porque sempre me foi dito por família e amigos que eu a estava a habituar mal, que ela nunca quereria ir por ela para o quarto/cama dela se dormisse connosco e que me ia ver grega para a mudar. Afinal, sempre a tentámos respeitar como indivíduo, e respeitar a sua necessidade de proximidade e de conforto até ela se sentir autónoma. Obviamente é um work-in-progress e vamos ver como progride, mas continuamos a dar-lhe liberdade para voltar para a nossa cama sempre que quiser.
Independentemente de quando ou como o façam, o importante é encontrarem uma rotina que respeite a criança e que vos permita descansar também.
E vocês, como fazem?

3 comentários:

Marina disse...

Eu nunca pratiquei o co-sleeping assim a sério e propositadamente. Às vezes acontecia, quando me deixava dormir a dar mama, ou quando o mais velho acordava a meio da noite e vinha para o nosso meio. Mas as rotinas de ir dormir sempre tive e fui incutindo desde cedo.
Por exemplo, para mim e quando eles já têm um padrão de sono definido é impensável uma criança estar a pé além das 21-22h. Acho que não é saudável verem tv até tarde, ou terem brincadeiras que os excitem muito à noite. O Manuel deita-se às 21h e antes dessa hora há o banho, o xixi e a história. Depois dorme a noite toda até às 8h. A Carmo também a deito a essa hora desde sempre, depois acordava para mamar como é óbvio. Agora já não mama de noite e só acorda de manhã.
Isso de dormirem melhor de noite quando descansam um bocadinho de tarde também já comprovei. :) Aliás, sempre ouvi dizer (avós e mãe) que as crianças "quanto mais dormem, mais sono têm".
Beijinho

moya disse...

Olá Marina, obrigada pelo testemunho!
Pois, para mim o co-sleeping sempre fez sentido. Afinal, todos os mamíferos o praticam e quase todas as culturas também, excepto a ocidental em que tal é visto como "perigoso" e "mau hábito"... O meu marido demorou 24h a ficar fã... Depois da primeira noite rígido para não rebolar para cima da moyinha, relaxou e instintivamente sabíamos sempre onde ela estava e como não a magoar. Há um panfleto da UNICEF sobre como ter um co-sleeping seguro.
Quanto à tv, nós restringimos muito o uso para ela, mas eu já fui tv-viciada e durante o pós-parto a altas horas, tinha sempre a tv ligada para não me aborrecer (especialmente na altura em que tive dor na amamentação)... se voltasse a trás faria de forma diferente. Acho que ela prestou atenção à tv cedo demais por eu ter sempre o aparelho aceso. Agora já não vemos tv à noite, especialmente se for perto da hora de ela ir dormir. Só quando come um grande jantar e não vai logo para a cama cedemos e vê uns bonecos.
O facto de ela se deitar mto tarde até há pc tempo tem a ver com 2 factores: 1) ela nunca andou em escola, pelo que nunca tive que a acordar: ela acordava à hora que queria, logo dormia o tempo que quisesse. 2) tanto eu como o meu marido (mas mais ele) tivemos durante estes 2 anos da Joana horários muito extensos: às vezes Às 21h ainda iamos a caminho de casa. E ele tinha muita mágoa de chegar a casa e ela já estar a dormir. Assim fomos estendendo o horário dela de forma a podermos vê-la acordada e brincar com ela durante a semana... Acredito que uma hora de recolher menos tardia seria melhor para ela, mas sei que ela e nós gánhamos proximidade por termos "quebrado a regra". Por isso é tão importante analisarmos cada situação e vermos o que é melhor para nós. ;)

Marina disse...

Claro moya! Talvez experimente o co-sleeping a sério com o próximo, é tão bom dormir enroscadinha com os meus bebés! Acho que já li algures que um casal comprou a maior cama que conseguiu encontrar por causa disso. :)