quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Considerações sobre o desmame natural

Por vezes, esta é uma delas, preciso de me lembrar de algumas noções sobre a amamentação.
Porque apesar de todo o criticismo e de todo o apoio, de todas as limitações e de todas as vantagens, 30 meses são 2 anos e meio e começa-se a esquecer algumas coisas, especialmente se os nossos toddlers voltam a "querer mamar como recém-nascidos".
Embora o desmame deva ocorrer por parte de uma ou ambas as partes, deve ser algo intrinseco ao duo e não algo imposto por alguém. Nenhuma das partes deve ser culpabilizada. O acto de amamentar e ser amamentado deve permanecer ao critério dos 2 intervenientes: a mãe e o bebé (o pai/companheiro da mãe pode emitir a sua opinião, claro, mas convém fazê-lo com cuidado e depois de se informar convenientemente). Também acho que a mãe deve, antes e durante a gravidez informar-se e desmistificar receios sobre a amamentação e procurar uma rede de suporte a quem recorrer em caso de dúvida e necessidade (doulas, CAM, LLL, SOS amamentação, grupos de mães, etc).
Às vezes, problemas tremendos que parecem não ter solução sem ser o desmame são facilmente ultrapassados com algum apoio, informação e empatia. Geralmente esquecemo-nos que há muitas mais mães que passaram pelo que nós estamos a passar e que geralmente têm uma palavra amiga e uma sugestão (geralmente útil) para nos dar.
Sempre fui ensinada a não balizar a amamentação: desde a primeira hora, sempre e enquanto a criança quiser. Sou da opinião que antes dos 6 meses se deve amamentar em exclusivo (aliás, até a criança começar a demonstrar interesse activo em alimentos sólidos), e que durante os primeiros 12 meses é extremamente importante porque para além da nutrição, que continua a ser efectiva, especialmente em casos de doença em que quaisquer outros alimentos ou líquidos são rejeitados, imuniza os pequenos exploradores e conforta-os quando têm medo ou feridas. Estes benefícios estão provados que continuam até aos 24 meses pelo menos, daí a recomendação da OMS relativamente à amamentação prolongada (ou como eu lhe gosto de chamar, amamentação continuada).
Acho que pelo menos durante os primeiros dois anos de vida ou até todos os dentes de leite terem nascido (isto porque é muito mais fácil e natural para a mãe e a criança lidarem com a dor-falta de apetite-congestionamentos-purgas desta fase com os benefícios e conforto do peito materno) a mãe deve arranjar maneira de conseguir disponibilizar o seu peito ou pelo menos o seu leite para o seu bebé, ou até arranjar quem possa dar leite materno no caso de não ser o seu (uma avó, uma tia, uma amiga). Durante a primeira infância há uma necessidade de sucção muito grande e tal não deve ser negado.
Fora raras excepções, os bebés não desmamam voluntariamente antes desta idade sendo que as crónicas de várias civilizações indicam que a idade do desmame se situa entre os 2 e os 3 ou 4 anos. A percepção de como devemos viver a nossa vida actualmente é que se afastou dos ideais de maternidade e vemos a amamentação como uma prisão, como algo supérfluo, como algo doloroso e que implica sacrifício:

"(...)In traditional societies, these choices simply don’t exist, neither would one think or dream of creating them. When a baby is born, it’s about the baby’s survival, because, from an evolutionary perspective, that baby is more valuable than you are, that baby is the one who will be carrying along your genes, so the thought that you would rather, e.g., go to the movies instead of feeding your child is simply not a question.
In traditional society, one would seek to ensure the infant’s safety and to fulfill it’s basic needs, and the best way to do both would be to keep that child close.
(...)"

Portanto, embora a mãe se possa sentir por vezes cansada ou com sentimentos negativos em relação à amamentação, deve - na minha humilde opinião - tentar resolver esses sentimentos (procurar a sua causa, aceitar e pedir ajuda, fazer listas de prós e contras, etc), e fazer um esforço durante esses primeiros dois anos de vida do seu bebé. Claro que vão haver momentos de dúvida, momentos de exasperação, mas os momentos felizes e os benefícios deverão superá-los em número e em duração :)
Esses sentimentos negativos podem começar a estar mais à flor da pele perto dos 2 anos da criança, no que a terapeuta argentina Laura Gutman chama da separação emocional do duo mamã-bebé, em que o pai ou figura masculina deve afirmar-se e entrar mais em cena substituindo a presença da mãe (até aqui indispensável). Esta separação é natural, e pode acontecer de forma mais consciente ou mais inconsciente, pode ter a ver com a amamentação ou com rotinas diárias, ou ambas ou nenhuma, mas também não deve ser vista pela mãe com culpa ou negação. Possivelmente foi a forma que a Natureza encontrou para provocar a clivagem necessária à separação emocional...

(LOL, e não, a foto não me representa!)

2 comentários:

Marina disse...

A minha Carmo tem 17 meses e mama 3-4 vezes por dia. Será que vai voltar a mamar como um recém-nascido? Agora fiquei com medo! lol

moya disse...

Ai! às vezes penso que estou a escrever só para mim e dou-me ao luxo de ser um pouco irónica demais. Obviamente a minha filha não voltou a mamar como uma recém-nascida. Quero dizer apenas que ela mamava 2 a 3x por dia e aí uma ou 2 por noite e agora, provavelmente por causa dos dentes e de uma constipaçãozita com que andou anda a mamar umas 3a 4x por noite e de dia sempre que se lembra. Claro que as mamadas dela duram 5minutos no máx. por isso, mesmo que a tua volte a mamar mais vezes, nunca é como uma recém-nascida porque as mamadas destas duram muito mais... Beijos e a amamentação é algo para levar com calma, muitttaaaa calma.